A hora da Estrela: o olhar feminino no social, no existencial e no estético

Sou apaixonada por Clarice! Escrevi este texto em 2006. Agora, resolvi compartilhar com todos a resenha deste maravilhoso livro.

O romance “A hora da estrela” (Rio de Janeiro: Rocco, 1998) da escritora Clarice Lispector, traz a história do autor-narrador Rodrigo S.M. que fala de si mesmo enquanto conta as fracas aventuras da nordestina Macabéa.  Esse foi o último romance de Clarice, publicado um pouco antes de sua morte. Sua narrativa trata das questões filosóficas e dos conflitos sociais, como também investiga o ato da criação.

A escritora, ao tratar das questões filosóficas, desenvolveu um olhar particular sobre as fronteiras e o alcance do conhecimento no mundo por intermédio da palavra e da consciência.   “Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever” (p11).  “Pensar é um ato, sentir é um fato”(p 11).  

Dessa forma, Clarice investiga o pensamento, eleva a reflexão sobre o existencial, sobre o conhecimento. Procura descobrir o que é real, na tentativa de romper com as convenções. “Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada - que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um...” (p12). No âmbito do questionamento social, por sua vez, confunde-se com o questionamento da própria linguagem, pois Clarice, busca a palavra mais adequada para expressar à linguagem. “... Meu material básico é a palavra”(p 14). “Mas não vou enfeitar a palavra...” (p 15). 

E é assim que ela rompe com as tendências habituais e renova seu próprio estilo, pois, até então, sua literatura explorava a existência interior. Nessa nova perspectiva, propõe um romance que favorece possíveis interpretações do real por meio das ações, pensamentos e palavras de Rodrigo S.M. e Macabéa, como também há inovação nas experiências e existência imaginárias de um autor-narrador masculino.“Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho” (p11). “É. Parece que estou mudando de modo de escrever” (p16).   

Assim, em A hora de estrela, Clarice opta por uma transformação no modelo de escrever. Essa nova opção estética passa agora a investigar e tratar de entender problemas mais amplos do que os existenciais. A riqueza desse romance mostra-se nessa inovação literária que o confere, referente, principalmente, à presença de elementos sociais, evidenciados na personagem Macabéa, que represente o cotidiano da maioria da população que vive “à margem” da sociedade.“Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem”.  

Esses elementos sociais se chocam, pois quando Rodrigo S.M. se vê frente a Macabéa, essa o acusa, e o meio de ele se defender é escrevendo sobre ela. “É preciso falar dessa nordestina se não sufoco”. Esse contato com o outro de classe, supostamente “inferior”, choca-se com o conforto material e pessoal de Rodrigo S.M., pois esse pertencia a uma classe social: a dos artistas.   “Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome...” (p 18). “A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim” (p 18, 19).

Livro: A hora da estrela: 
Autora: Clarice Lispector
Idioma: Português
Assunto: Romance
*Comprar: R$ 20,00 na Livraria Cultura e Livraria Saraiva

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