Escritor(a) da Semana: Lucila Nogreira

A escritora da semana é Lucila Nogueira. Professora, poeta, ensaísta, contista, crítica e tradutora, mulher, enigmática e que aos 60 anos luta contra um cancer. Nasceu no Rio de Janeiro, 30 de março de 1950. Para mim é uma  honra ter sido sua aluna.
                                               
Do livro: 
Livro do Desencanto(1991)
Lucila Nogueira             

O prazo de criança está vencido
Nos álbuns de gravuras coloridas
fadas desesperadas me suplicam
seu retorno ao país das maravilhas.

Pedem ternura, sonho e elegria
mas toda essa magia está perdida.
Crueldade, frieza e hipocrisia
vigiam sob a teia do destino.


Em entrevista ao  Jornal do Comercio: caderno C
Lucila fala sobre seu mais novo trabalho.


“Quando envelhecer deixo a poesia” 

Ao completar 60 anos (no último dia 30), 30/03 a escritora Lucila Nogueira anunciou uma série de novos projetos para marcar a efeméride. O primeiro foi a publicação da sua tese de doutorado em teoria literária pela UFPE, O cordão encarnado, que trouxe uma inédita leitura política da obra de João Cabral de Melo Neto. O estudo sai agora em dois volumes pelas Edições Bagaço. Lucila prepara para o final do ano ainda uma edição especial passando a limpo seus 30 anos de poesia, comemorados ano passado. Nessa entrevista, ela fala sobre engajamento literário, subversão e pela primeira vez menciona o câncer que está enfrentando.


JORNAL DO COMMERCIO – Sua tese de doutorado, O cordão encarnado, publicada agora em dois volumes, defende o viés político da obra de João Cabral de Melo Neto, algo que ele sempre negou. Como a senhora chegou a esse viés do poeta?

LUCILA NOGUEIRA – O Cordão encarnado, tese de doutorado em teoria da literatura defendida em 2002, analisa os livros de João Cabral O cão sem plumas e Morte e vida Severina. A sociocrítica destaca a ideologia mas não se confunde com análise política. Nessa técnica de análise literária que resgatou os lapsos do estruturalismo, leva-se em conta o contexto social em que a obra foi produzida. No caso de Cabral, o período de 1947 (O Cão sem Plumas) a 1956 (Morte e vida Severina), ele foi processado por acusação de formar uma célula comunista em Londres, junto com outros colegas. Houve processo administrativo, após o qual foi afastado do Itamaraty, ocorrendo também processo criminal. Veio para Pernambuco, enquanto corria o recurso e tomou contato com o Teatro do Povo de Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna. Depois foi julgado inocente e retornou ao cargo. Esses acontecimentos se refletem nos livros analisados. O meu trabalho relaciona o poeta pernambucano com outros artistas e intelectuais de sua época: Portinari, Graciliano Ramos, Josué de Castro, Francisco Julião, todos voltados a uma visão de denúncia da miséria do homem nordestino e brasileiro. Entretanto, nesse ângulo da sociocrítica, é exatamente a ideologia que vai permitir uma maior depuração formal das características da poesia cabralina, pois o fato de conviver com Willy Levin no Brasil e a obra de Gaudí em Barcelona é que vai favorecer a contundência e estranhamento da plataforma surrealista em O cão sem Plumas. A crítica que faço é a mesma que sempre utilizo em sala de aula, integrando percepção e expressão formal, que inclusive em João chega a um alto grau de sofisticação.

JC – A senhora poderia comentar sua leitura de Morte e vida Severina, que é a obra mais famosa de João Cabral?

LN – Dediquei 255 páginas a Morte e vida Severina, são oito capítulos em que se trata da questão da morte, da violência, das rezadeiras nordestinas, do Recife, do suicídio, da miséria e apenas um que fala da reforma agrária. As páginas são percorridas por considerações sobre autores como Shakespeare, Lautréamont, Augusto dos Anjos e Sylvia Plath. Minha tese ultrapassa o político por estar ligada ao perfil enciclopédico de um plano metafísico, que declara Severino um suicida. Há, além disso, toda uma análise do romance ibérico e suas relações com o universo nordestino. Mas nem por isso deixo de aclarar o auto cabralino como manifesto a favor da reforma agrária, isso para alguns esquecidos da academia, porque nos decisivos anos sessenta disso todos já sabíamos.

JC – Como foi a postura do João Cabral diplomata, ele conseguia ser neutro ou sua postura política falava mais forte?
LN – Poeta neutro é coisa completamente “absurdista”. Neutro é sabão líquido de roupa íntima. Cabral era apaixonado, exaltado, comprometido. Com a problemática do emprego no Itamaraty, passou a ter cuidado com suas declarações em entrevistas. Perguntado inclusive pelo Jornal do Commercio, há décadas, sobre o ressurgimento de governos progressistas na América Latina ele declarou que era um funcionário público e quem quisesse saber a sua resposta fosse ao Ministro de Relações Exteriores. São ossos do ofício. Outro que também foi afastado, o Vinicius (de Moraes), sofria muito pois tinha que ir de paletó até para ensaio de escola de samba.

JC – A senhora acha que lemos os poetas de forma mais “amaciada” do que os escritores de prosa? Todo escritor seria meio subversivo?

LN - Subversiva era uma palavra muito utilizada nos anos 60. Era aplicada a quem não estava a favor do sistema. Acusado de atividades subversivas do ponto de vista político, Cabral dedicou a sua obra a uma expressão descarnada, seca e áspera como a miséria nordestina. A sua subversão estética é a vanguarda. Daí porque é muita falta de discernimento poético, considerá-lo geração 45,apesar da métrica e da rima toante.

JC – Toda obra literária seria engajada politicamente, mesmo sem o ser diretamente?

LN – O engajamento do poeta é seu livro. Sua arma é a sua fala. Alguns, como Miguel Hernandez, pegaram em armas na guerra civil. Tenho trinta traduções dele feitas em 1979 que desejo publicar neste ano redondo de seu centenário. Outros não o fizeram, mas ainda assim foram fuzilados, como Garcia Lorca. Foi pelo seu envolvimento político com a atividade teatral da Barraca que morreu e não por qualquer outro motivo. Mas o nosso engajamento não é só político, ele é ligado ao sofrimento da condição humana, à denúncia da injustiça em qualquer nível. Inclusive no plano amoroso e metafísico.

JC – Neste ano, a senhora comemora 60 anos, como essa efeméride vai refletir em sua literatura futura?

LN – Estou lançando até o final de abril o Livro dos Trinta anos, reunião dos meus 22 livros de poesia, mais os poemas traduzidos para o francês e inglês. Estou também escrevendo uma antibiografia para lançar na Freeporto deste ano, em dezembro. Nela, falo de lugares e pessoas inesquecíveis. O título: Contagem regressiva. Quero ficar um dia bem velhinha, luto contra um câncer porque adoro a vida. No entanto, a idade sempre reflete no que sou e no que escrevo me tornando cada vez mais uma menina. Quando envelhecer, deixo a poesia.
Publicado em 04.04.2010. Jornal do Comercio.

Lucila é origem luso-galega, tem vinte livros de poesia publicados e cinco de ensaio, além de muitos artigos em revistas impressas e online. Viveu no Rio de Janeiro, atualmernte residindo no Recife. Professora de Teoria de Poesia, Teoria da Ficção e Literatura hispano-americana (Pós-graduação) e Literatura brasileira, Literatura portuguesa e Teoria literária (graduação) do curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Representou o Brasil nos Festivais Internacionais de Poesia de Medellin (2006), Havana (2007) e México (2007 e 2008). Está incluída na Antologia de Poesía Brasileña editada em Madrid em 2007 pela Huerga y Fierro Editores e na Anthologie Poétique Nantes Recife, édition de la Maison de la Poésie de Nantes com a prefeitura do Recife, no mesmo ano. Organiza edições, congressos e eventos culturais. Mantém há dez anos a Oficina Lucila Nogueira de Poesia e Conto, desenvolvida em módulos em várias instituições. Ocupa a Cadeira 33 da Academia Pernambucana de Letras, eleita em março de 1992; é sócia-correspondente da Academia Brasileira de Filologia, sediada no Rio de Janeiro. Tem vinte livros de poesia publicados, a saber: Almenara (1979), Peito Aberto (1983), Quasar (1987), A Dama de Alicante (1990), Livro do Desencanto (1991), Ainadamar (1996), Ilaiana (1997-2000 2ª.ed.), Zinganares (1998 – Lisboa), Imilce (1999-2000 2ª.ed.), Amaya (2001), A Quarta Forma do Delírio (2002 - 1ª. 2ª.ed.), Refletores (2002), Bastidores (2002), Desespero Blue (2003), Estocolmo (2004-2005 2ª.ed.), Mar Camoniano (2005), Saudade de Inês de Castro (2005), Poesia em Medellin (2006), Poesia em Caracas e Poesia em Cuba (2007). Fonte Interpoetica