Quais serão os hábitos dos escritores na hora de escrever?

Eu sempre me pergunto, quando leio um bom livro, como o escritor iniciou aquela obra. Quais foram as manias e superstições na hora de escrever? Foi uma ideia que veio de repente, e ele não conseguiu mais para de escrever, ou foi “70% transpiração e 30 % inspiração”. Ele se cercou de todos os apetrechos, como figa, ferradura, pé de coelho... para dar sorte? 
       
Quais serão os  hábitos dos escritores na hora de escrever? Fico sempre a  me perguntar. Então fui à caÇa e encontrei um material bem legal. Vejam o que alguns escritores brasileiros falam. 

Raimundo Carrero, autor de O Amor Não Tem Bons Sentimentos  – “Só tenho um hábito quando escrevo: rezo. Como todo bom sertanejo, acredito no Espírito Santo e faço minhas orações. Em geral, não preciso de horários ou circunstâncias. É claro que costumo acordar muito cedo para escrever. E estou sempre fazendo alguma coisa. Ando com uma agenda onde faço anotações. Agora mesmo estou escrevendo um Diário da Criação onde informo tudo o que acontece comigo no plano literário: personagens, cenas, cenários, diálogos, e adianto as informações técnicas: por que uso um diálogo direto ou indireto, qual a necessidade de uma cena – rapidez – ou de um cenário – lentidão. Explico a função e o efeito. Enfim, revelo as estratégias para escrever uma novela. Faço  tudo com muitos detalhes. Prefiro acreditar no trabalho obstinado. Não conheço domingos, feriados ou dias santos: trabalho e trabalho e trabalho. Sempre.”

Marcelo Mirisola, autor de Memórias da Sauna Finlandesa  – “Nenhuma superstição. Apenas trabalho. Sou como o motorista de ônibus que engata a primeira marcha, a segunda, e segue – aos trancos e barrancos – até o ponto final. Só isso.”

Wilson Bueno, autor de A Copista de Kafka – “Sou mais um ‘reescritor’ do que um escritor propriamente dito, tamanha a obsessiva e exaustiva e neurótica reescritura que faço dos meus textos. Copio Clarice (Lispector),  e essas coisas são extremamente contagiosas: quando da máquina datilográfica, dava 7 espaços do começo da lauda até o início do texto a ser iniciado. Hoje faço o mesmo no computador. Isso é sagrado – toc, toc, toc na madeira mais próxima. 7 sagrados espaços 1/5 ( no word).
Só escrevo de madrugada, geralmente começo à 1 hora da manhã e vou até quando der. Prometo a mim mesmo, quando envolvido com algum projeto (ficcional), mesmo extenso, só escrever, no máximo, 2 páginas de 31 linhas, em rigorosas Garamond 14, com zoom em 94%, espaço 1/5 – isso aí também é outra obsessão.
Se for além das duas páginas, muito que bem, epifanias… Se não consigo ultrapassá-las chego a ficar 3, 4, 10 dias longe do projeto, angustiado, culpado e horrorosamente com medo de mim mesmo, um impotente, alguém que, embora com mais de 15 livros publicados, nunca escreveu uma linha…
Um belo dia retomo, e se chego às duas páginas (ou mais), de novo, sigo no ritmo diário, ou madrugueiro – de modo constante, até novo nó, claro…
Quando dou o texto por ‘concluído’ (as 2 laudas ou mais) aí é que começa a glória e o êxtase de escrever. Sem angústia, puro gozo, releio, na cama, se frio (e sempre faz frio em Curitiba) embrulhado em cobertores e lareira acesa, crepitando (tem que estar crepitando, hehehehehe), os papéis A-4 sobre uma velha prancheta de papelão que me acompanha seguramente há uns 20 anos.
Se um dia eu perder a prancheta, acho que não escrevo mais, tem que ser ela, somente ela, não mais que ela…. Aí leio como se fosse outra pessoa, um estranho face àquele texto e desce, então, a caneta Mont Blanc, esferográfica (tem que ser ela, só ela, apenas ela, exclusivamente ela, presente de um velho amigo e que está junto comigo aí uns 15 anos) sobre o texto, praticamente o desfigurando, de primeira.
Volto ao computador, corrijo o texto no word, imprimo como se fosse a versão definitiva. Volto à cama, ao quarto, à prancheta, à Mont Blanc, à lareira, ao estrangeiro que lerá aquele texto que não me pertence. Não precisa dizer que a caneta desce de novo impiedosa desfigurando o texto, só que um pouquinho menos…
Isso até começarem a passar os primeiros carros por minha rua de arrabalde, o dia clareando atrás das cortinas e então, só me dou o direito a um sono reparador, e sem culpa, se o texto que voltou da impressora (seguramente a trigésima nona versão…) prescindir da rigorosa (e implacável) Mont Blanc. Tem que ser um texto sem mácula, nem que depois, na releitura total do projeto, eu o desfigure de novo e aí recomeça a sanha… Não vou dormir, mesmo se ao digitar, bati um ponto vírgula onde deveria ser uma vírgula ou uma letra encavalou na outra… TEXTO SEM MÁCULA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ô ofício, ô vida. Tem gente que chama isso de profissão. Também, a exemplo de Clarice, que conheci na juventude, chamo a isso de ‘missão’, ‘mediunidade’. Não escrevo, corro  atrás de mim mesmo.”

Moacyr Scliar, autor de Manual da Paixão Solitária – “Em termos de escrever, o meu método, ou mania, ou superstição consiste em não ter método, ou mania, ou superstição. Desenvolvi minha atividade literária paralelamente a uma intensa carreira médica (primeiro clínica, depois em saúde pública), escrevia quando podia, quando dava tempo. E isso podia acontecer em qualquer lugar: numa lanchonete, esperando a comida, num hotel, no aeroporto (o laptop ajudou muito). Não preciso de silencio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais – só preciso de um teclado. E ah, sim, de ideias (mas diante do teclado as ideias surgem).”

Ana Paula Maia, autora de Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos – “Escrever na parte da manhã é sempre melhor pois minha cabeça está bem fresca e ainda não tomei contato com a realidade. Sendo assim, entrar na realidade dos mundos que proponho fica mais fácil. Preciso estar limpa. Não gosto de escrever fedendo, suja ou suada. Não me importo com o som de uma britadeira trabalhando ao longe ou o toque da campainha do vizinho. O mais difícil é sair da realidade do mundo ficcional e encarar a fila no supermercado.”

Os creditos vão para o ótimo material em: michellaub