Saudade... aos apaixonados

 LUÍZA VINHA DE NOITE


Luíza vinha de noite, na sombra do muro coberto de madressilva, e entrava pelo portão do lado. Vinha ofegante, muda, nervosa, tremendo, tremendo... vinha geladinha aquela mulher: geladinha geladinha, como se estivesse nua em pêlo, despida, já sem nenhuma das roupas que se iam afrouxando e lhe caindo do corpo pelo chão, mal ela entrava em minha casa.

Se eu disser que jamais trocamos uma palavra, estarei mentindo. Mas a verdade é que nunca chegamos a conversar um pouco que fosse; nunca chegamos a parar para conversar ao menos sobre nós mesmos, ou sobre os outros; nunca tivemos tempo para falar, porque sabíamos antes de tudo que não tínhamos tempos, que o que nos faltava era tempo.

Cada vez que Luíza vinha de noite era a última. Ela não precisava dizer, porque eu temia que fosse. E ela vinha como que ressolhando, afogada nas palavras que não podia ou não queria dizer...
Luíza vinha de noite...
Mas agora eu já não a vejo nesta porta que se abriu para ela, neste espelho que a viu entrar, nesta cortina que escondeu seu corpo... É como se, pior do que perder Luíza, eu fosse agora perder a lembrança de Luíza.
...
Vivo entre recuerdos, com medo deles. Com medo de desfrutar tão intensamente a relembrança de Luíza ...Tenho chorado como uma criança. Vivo como uma letra de tango: tenho medo do reencontro com o passado que é a razão de minha vida.
Luíza desapareceu: se foi sem avisar de nada, sem mandar um recado, sem deixar um bilhete.
...
Luíza...
Seu cabelo muito negro e espesso, sua pele muito branca e fria... seus olhos, sua boca, seus seios, os braços, os ombros, as coxas...
Luíza ( já tenho que buscá-la no que lembro de mim mesmo)...
Luíza foi como veio. Não sei se devo contar que só me convenci de que ela não vinha mais quando me certifiquei desesperado que não vinha mais porque tinha ido embora de Jaguarão.

Eu não sei o que dizer, porque talvez o pior de tudo seja dizer. Estou sem ter o que  dizer (tenho até medo de fazer um poema); mas o que temo mesmo é gastar nas palavras a lembrança de Luíza.

Uma bela inspiração para: "a semana dos apaixonados". A todos, um amor assim...


Fragmentos do conto "Luíza Vinha de Noite" de Aldyr Schlee. Contos de Verdade, 2000.