A Bolsa Amarela || Se eu me chamasse Raimundo? Seria uma solução?

“ Mundo mundo vasto mundo 
Se eu me chamasse Raimundo 
Seria uma rima, não seria uma solução 
Mundo mundo vasto mundo 
Mais vasto é meu coração.”
(Poema de Sete Faces. DRUMMOND, Carlos)

Você não tem a impressão de que a denominação, ou a nomeação das coisas, na maioria das vezes, não representam, exatamente, o que elas são?

O poema de Drummond fala muito bem disso: o mundo é muito vasto e nomeá-lo me parece que o aprisiona, sabe? Diminui sua significância. Não é uma solução.

Bom, mas porque estou a falar de denominações, nomeações? É que quero falar da Literatura Infantil e Infanto-Juvenil. Quero falar a respeito de como sou insatisfeita com a representação tradicional reducionista e com as convenções que tolhem a livre autenticidade da Literatura.  Porque acho que  a denominação Literatura Infantil diminui sua importância. Para muitos, a Literatura Infantil é tida como a "prima pobre" da Literatura.

O que eu  quero é chamar atenção para  caráter multifacetado da Literatura Infantil e desafiar, propositadamente, as teorias que insistem em incidências semânticas restritivas. A expressão literatura  infantil é direcionada aos não adultos, o que não significa ser o público infantil a única possibilidade de leitores.

É isso mesmo!! Acredito muito nisso. E há vários estudos sobre este tema. A Estética da Recepção é uma das correntes literárias que vai dar conta destes estudos. Como exemplo de obra infantil multifacetada, apresento o livro Bolsa Amarela de Lygia Bojunga Nunes. 


A narrativa Bojunguiana proporciona reflexões sobre diversos temas: identidade, verdades, relações familiares, de poder e repressão à liberdade de expressão no contexto social.Bolsa Amarela quando lido por crianças resulta em uma interpretação diversa em relação à interpretação de um adulto, devido às condições históricas distintas desses dois.

O caráter multi-aspectual de uma obra de arte permite que ela possa ser abordada por diversos caminhos, aliado a isso, a recorrência a um ou a outro método de análise está relacionada também com o “olhar”, o conhecimento e o interesse do leitor.

Não se pode afirmar, entretanto, que a obra literária possui ilimitadas interpretações, e sim que as interpretações respeitam os limites sugeridos pela obra.

Bom, é isso. Apresento a vocês "A Bolsa Amarela", um romance de uma menina que entra em conflito consigo mesmo e com a família ao reprimir três grandes vontades (que ela esconde numa bolsa amarela) a vontade de ser gente grande, a de ter nascido menino e a vontade de se tornar escritora. A partir de sua imaginação Raquel inventa amigos imaginários, coloca em uma bolsa : um galos, um guarda-chuva e um alfinete.

No decorrer da história, as vontades de Raquel se revelam uma crítica às relações de poder, até mesmo do poder familiar. A escritora expõe essa realidade de uma maneira lúdica, comum ao universo de imaginação das crianças.

Ao contrário do que muitos pensam o lúdico enriquece uma obra literária, na medida em que possibilita um maior número de interpretações.


Em agradecimento: Camila e Marcela