A história de um amor desenredado

Primeiro, para deixar claro, não gosto da palavra corno. Acho feia, pesada, deselegante. Embora goste da palavra unicórnio, pois sempre gostei dos seres fantásticos – em filmes e desenhos animados – que são denominados por ela. Mas, corno, não! Não gosto e pronto. Esta palavra poderia ser grafada com prefixo [con-]. E ficaria “concorno”. Mais bonita, não?

O fato é que para neologismo já demonstrei que não tenho talento algum. Deixo isso para o genial Guimarães Rosa. Aliás, toda essa lengalenga é para introduzir um personagem seu: Jó Joaquim. Do conto Desenredo, livro Tutaméia: terceira estórias. Um personagem tão paciente, tão compreensivo que só comparado mesmo a Jó, aquele outro da Bíblia. Aquele que tudo sofreu, a tudo suportou em nome do amor.

Jó Joaquim também sofreu, também suportou em nome do amor. Não por amor a Deus, como o leitor já deve ter intuído, mais por amor a Livíria, Rivília ou Irlívia, morena mel e pão. Olhos de viva mosca. Aliás, casada. Era um amor às escondidas, porque o marido se fazia notório, na valentia. Foi amatemático, alógico, o amor de Jó Joaquim.


O leitor deve achar que cometi um engano ao dizer que Jó Joaquim era o traído da história. Acontece que o trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Hum!

Ora, a traição aqui não é da instituição casamento, mas sim do amor. Este sentimento, que muitas vezes, não segue regras, não reconhece convenções. E você leitor, assim como Jó Joaquim deve estarderrubadamente surpreso. No absurdo, como aceitar? Jó Joaquim proibia-se de ser pseudopersonagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.

Mas.

O tempo é engenhoso. E com à Providência praz, o marido faleceu. Soube logo Jó Joaquim. Nela acreditou num abrir e não fechar de ouvidos. Casaram-se.

E você, meu amigo leitor (Se tiver algum leitor aí. Ora, será que tenho leitor?), me pergunta:_ Jó Joaquim casou com a traidora? Já aconteceu uma vez, a probabilidade de acontecer de novo é muito grande. E eu respondo: _ Sim, é verdade. 

O abominoso é imprevisível. Mas, neste caso não era tão imprevisível, assim. Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou. Expulsou-a apenas. Jó Joaquim sentiu-se quase criminoso, reincidente.

Mais.

De sofrer e amar, a gente não se desafaz.
Nosso querido personagem entrou numa empreitada, eu diria quase impossível, redimir, remir. Aquilo que fora tão claro como água suja. Jó Joaquim operava o passado. Haja o absoluto amor – e qualquer causa se irrefuta.

Autor: João Guimarães Rosa
Livro: Tutaméia: terceiras estórias 
Editora : Olympio
ePub: R$ 23,90 na Livraria Cultura

Este texto foi publicado no JUNIPAMPA. Visitem!