A Gangue Escarlate de Asakusa


Décimo título do escritor Prêmio Nobel Yasunari Kawabata traduzido pela Estação Liberdade, A Gangue Escarlate de Asakusa é uma das raras narrativas urbanas do autor, publicada de forma episódica num jornal de Tóquio entre 1929 e 1930. Asakusa, evocado no título, refere-se ao distrito que, por muito tempo, representou o pólo de entretenimento e vida boêmia mais famoso da capital japonesa. O livro refaz a história da derrocada do bairro, cujos personagens são indigentes, jovens delinquentes, prostitutas infantis e outras dessas figuras próprias das grandes capitais.

Kawabata evoca aqui experiências biográficas, uma vez que morou no bairro quando era estudante, tendo percorrido as casas de espetáculos, conversando com as dançarinas, os sem-teto e os tipos que davam cor e sabor a Asakusa, registrando-os em anotações que virariam, afinal, a matéria-prima da obra. É justamente por esse contato tête à tête de Kawabata a vida real e vibrante das ruelas do bairro que faz com que A Gangue Escarlate de Asakusa se insinue como um relato factual, quase jornalístico, embora o próprio autor assevere, logo nas primeiras linhas, tratar-se de uma recriação fictícia. (Leia um capítulo do livro!)


A gangue em questão é formada por jovens que vivem, e sobrevivem, em Asakusa, e que se ajudam mutuamente em pequenos delitos, oportunizados pela “máscara digna” que vestem, como a de artistas de algum tipo de espetáculo de revista, de guias turísticos e afins. É por meio das andanças da líder Yumiko e de seus comparsas que descobrimos as agruras de suas vidas pessoais e os sonhos que, muitas vezes, a dificuldade pela sobrevivência os faz reprimir.

Não deixa de ser fascinante o retrato desse Japão ainda pré-moderno cujas mazelas sociais hoje inimagináveis Kawabata expõe sem metáforas. Segundo o que o próprio autor informa em dada passagem, o bairro de Asakusa tinha uma visitação anual que chegava a 100 milhões de pessoas, que para lá se deslocavam em busca de atrações diversificadas que o local oferecia, como o Asakusa Kannon (nome popular pelo qual é chamado o famoso Templo Senso), as casas de tiro ao alvo, os bares de saquê, os espetáculos burlescos. Por tabela, também vigorava o circuito da prostituição infantil velado – embora nem tanto. “Elas desfilam pela Nakamise fazendo de conta que são dançarinas de show de variedades”, escreve Kawabata em dado momento, sobre certas meninas de Asakusa de “dupla atividade”.

A verossimilhança da narrativa é potencializada, sobretudo, porque o texto de Kawabata registra as gírias e as formas de expressar próprias dos jovens – e daquele lugar específico do Japão da época. Também por isso, A Gangue Escarlate de Asakusa não deixa de ser um romance de formação, na medida em que a própria sobrevivência no bairro por parte dos personagens, que são majoritariamente adolescentes, denota o ritual de passagem à vida adulta. Exemplo da personificação disso é o personagem Baixinho do Barco, órfão acolhido pela gangue e que se tornou “especialista em descobrir objetos suspeitos em lugares escusos”, como uma carteira escondida por um batedor.  Aprender a esquivar-se dos perigos das ruas, a ganhar dinheiro e “se dar bem” forjam, e antecipam, nesses pequenos anti-heróis de Kawabata aquilo que na cultura brasileira talvez se chamasse de “malandragem”.

É preciso destacar a ousadia com a qual o autor costura a história, desenhando um mosaico de tipos ecléticos, apresentados não sob descrições convencionais, mas em geral a partir de diálogos frenéticos. O leitor é, assim, catapultado sem concessões para dentro do olho do furacão da trama, como se a própria leitura da obra o tornasse, também, mais um da turma de Asakusa.

A profusão de personagens, o ritmo alucinante e a forma fragmentária do texto – possíveis influências do modernismo europeu – são marcas que, na produção kawabatana futura, praticamente desaparecerão. Trata-se, portanto, de um registro raro da art in progressdesse escritor prolífico, conhecido pelo esmero com que costura suas tramas, característica aqui também evidenciada.  

O AUTOR

Prêmio Nobel de 1968, Yasunari Kawabata é considerado um dos representantes máximos da literatura japonesa do século XX. Nascido em Osaka em 1899, interessou-se por livros ainda adolescente, principalmente clássicos do Japão, tendo estudado literatura na Universidade Imperial de Tóquio. Acompanhado de jovens escritores, defenderia mais tarde os ideais da corrente neossensorialista, que visava uma nova estética literária, deixando de lado o realismo em voga no Japão em prol de uma escrita mais lírica e impressionista. Doente e deprimido, Kawabata suicidou-se em 1972. Outras de suas obras traduzidas no Brasil pela Estação Liberdade são A casa das belas adormecidas (edição original: 1961/edição brasileira: 2004), O país das neves (1935/2004), Mil tsurus(1949/2006), Kyoto (1962/2006), Contos da palma da mão (1971/2008), A dançarina de Izu (1926/2008), O som da montanha(1949/2009), O lago (1954/2010) e O mestre de go (1954/2011).

TRECHOS

Na ilhota, em frente a Tachibanaya, uma casa especializada em cozidos tipo oden, um homem grandalhão, em pé junto às arálias que cresciam debaixo dos ramos de salgueiro, comia os pedacinhos de fu espalhados na água. Ele entrara na água até os tornozelos, puxava os fu que flutuavam na superfície com uma vara de cerca de dois metros e os devorava com avidez.
— Que doido varrido! Está tirando a comida das carpas! — observou alguém. [pg. 15] 



Umas gueixas oravam no templo. Estudantes a caminho do colégio. Mendigos. Meninas-babás. Operários diaristas. Um homem voltando para casa. Os sem-teto. Embora não seja nada estranho que passem todos os tipos humanos pelo átrio do templo Senso, observar tão numerosas pessoas aglomerando-se para ver comércio a céu aberto, às sete, oito da manhã, com cara de quem está desligado deste mundo, é de fato algo fantástico neste Asakusa. [pg. 32]

O “homem da boca no ventre” é natural de Asahikawa, Hokkaido. Por ter bebido muito saquê para suportar o frio da nevasca, e chegando a ingerir álcool puro, acabou sofrendo um estreitamento do esôfago; e então foi aberto um orifício em seu ventre, numa cirurgia feita na Faculdade de Medicina de Hokkaido. (...) Mesmo depois de ficar neste estado tão miserável, ele não consegue esquecer a delícia do saquê e, de vez em quando, resolve tomar uns go. Saboreia com a boca do rosto e ingere com a da barriga; quando bebe, sai do bom caminho e pode acontecer de ele ir a Yoshiwara para uma farra. [pg. 39]

— Ah, sim. Naquele tempo, você costumava acordar minha irmã às altas horas da noite, cutucando a cabeça dela com uma espátula de servir arroz. Sempre que eu acordava, sabe?, e me dava conta de que dormia no chão frio de concreto, queria que me comprasse e me levasse para uma casa que tivesse tatames, não importa o que fizessem de mim. [pg. 79]

“A velha costumava fazer com que a jovem se enfeitasse lindamente para atrair o viajante que dali se aproximasse, e então a moça tinha de convidá-lo para passar a noite. A idosa mandava a filha fazer companhia ao homem, deitando-se junto dele no travesseiro de pedra. No meio da noite, quando o viajante estivesse dormindo profundamente, a velha rompia a corda que prendia uma pedra no alto, esmagando a cabeça do homem ao lado da filha, tirava as vestes do cadáver ensanguentado e lançava o corpo no lago.” Desse modo foram assassinados 999 homens. [pg. 101]

Na manhã seguinte, quando acordou no segundo andar da casa da tia, Oharu estava completamente nua. Levou um susto, tocando com as mãos seus quadris, e confirmou sua nudez. Não havia homem. Levantou-se de um salto, acendeu a luz e viu sua figura branca e nua em pé dentro do espelho da penteadeira. Retirou a coberta. O lençol que tinha na véspera havia sido removido. Abriu o armário embutido; estava vazio. Não encontrou nada que pudesse colocar no corpo, nem mesmo um cordão. Atarantada, voltou para o leito e se cobriu com a colcha. [pg. 203]

Livro: A Gangue Escarlate de Asakusa 
Editora: Estação Liberdade
• Tradução de Meiko Shimon 
• 14 x 21 cm 
• 224 páginas 
• ISBN: 978-85-7448-226-2 
• R$ 45,00 na Livraria Cultura