[Resenha] Os deixados para trás

OsDeixadosParaTrasO que dizer do livro Os deixados para trás (Editora Intrínseca)? Ele me causou certo desconforto. E, em literatura, esta sensação é essencialmente uma coisa boa. Principalmente, se tomarmos que uma das funções da literatura é nos desorganizar para em seguida nos reorganizar (ou quase isso).

Antonio Candido, em O direito à literatura, diz: “A organização da palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro a se organizar; em seguida, a organizar o mundo.

Esse foi mais um livro que comprei porque também acompanho a série "The Leftovers", que é baseada no livro (ah, a cultura pop me atrai). E devo dizer que o show da TV não conseguiu me conquistar.

Lembram que na última resenha eu falei sobre livro "Orange is the new black" e que eu gosto da série, porém não gostei do livro. Com "Os deixados para trás" foi o contrário: gostei mais do livro.
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Os deixados para trás assume, em suas páginas, a forma de um romance pouco sutil no tratamento dado ao sofrimento pela perda de alguém. Quando uma pessoa querida more sabermos que ela não voltará e de alguma forma descobrimos como seguir em frente. No entanto, conviver com a dúvida que o desaparecimento causa, sem sabermos se a pessoa está morta, para onde ela foi, ou se ela voltará, é desesperador. É uma dor que consome aos pouco.

Pois é. Em Os deixados para trás, assim, do nada, milhões de pessoas ao redor do mundo desaparecem, em um evento conhecido como Partida Repentina – em um 14 de Outubro.

Depois de três anos, as pessoas ainda tentam achar uma forma de sarar a dor, curar o trauma. E principalmente, tentam entender por que alguns foram escolhidos e outros não? Qual foi o critério? Os que se foram podem ser considerados heróis?

O fato é que a vida dos que ficaram não está do mesmo jeito. Eles precisam descobrir uma forma de superar o trauma.

Em Os deixados para trás, a narrativa gira entorno da família Garvey e Nora Durst. O livro é dividido em cinco partes, em que o narrador apresenta, de forma fragmentada, a vida dos cincos personagens.

O pai, Keven Garvey, prefeito da cidade de Mapleton, tenta amenizar o trauma, trazer esperança a todos os cidadãos. No entanto, não consegue resolver os traumas de sua própria família. Os Garvey não terem perdido ninguém da família, mas se perderam deles mesmos.

Keven ainda se envolve com Nora Durst, uma mulher que perdeu toda filhos e maridos no 14 de Outubro e continua chocada com a tragédia, apesar de se esforçar para seguir adiante e recomeçar a vida.

A esposa, Laurie, deixou a família para se juntar a um culto, Os Remanescentes Culpados, cujos membros fazem voto de silêncio (o extremismo ronda esta seita).

O filho, Tom, abandonou a faculdade para seguir um profeta duvidoso chamado Santo Wayne.

A filha adolescente, Jill, tem um comportamento autodestrutivo. Definitivamente, não é mais a dócil estudante nota dez que costumava ser.
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Os deixados para trás faz referência ao 11 de Setembro, como a sociedade estadunidense ainda lutam para superar os efeitos daqueles trágicos acontecimentos, ressaltando o quanto foi perturbador as consequências e as opacidades das causas. Parece que, afinal, a América não é a terra prometida.

Também podemos tomar o arrebatamento como uma metáfora para tudo aquilo que nos é tirado com violência. A atenção está no fator humano. Claro, o livro foca na questão da fé e, principalmente, na linha tênue que separa fé e fanatismo.

Por fim, quero listar algumas das referências musicais que o livro traz.
Fire and rain – James Taylor
Buffalo soldier – Bob Marley
Julia – Beatles
Paperback writer – Beatles
Little red corvette – Prince


Referências:
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: ______. Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul. São Paulo: Duas Cidades, 2004.


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