Resenha do romance Essa terra

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O Romance Essa terra, de Antonio Torres (Editora Record), foi uma das minhas melhores leituras de 2014. Sabe aquelas leituras que a gente tem certeza que vai levar para vida toda? É o caso de Essa terra.

Essa terra é colocado pela crítica na caixinha dos romances regionalistas. E aí você já pode torcer o nariz, achando que é um livro menor.



Pois é. Podemos até problematizar o conceito de regionalismo dentro do próprio romance, uma vez que os elementos regionalistas estão lá: os estereótipos, a cor local, o social. No entanto, esse conjunto de signos representativos da região sertanista é secundário dentro da obra, mas ao mesmo tempo estes elementos são funcionais. Eles estão presentes, mas com sentidos renovados.

No romance de Antonio Torres, escrito em 1976, acompanhamos a história de uma família de Junco, interior da Bahia, cujo filho mais velho, Nelo, migrou para São Paulo, em busca de uma vida melhor.

Torres usa o recurso de narração fragmentada, na perspectiva do personagem Totonhim, irmão mais velho Nelo.

Nelo "Não tendo herdado um único palmo de terra onde cair morto, um dia pegou um caminhão e sumiu no mundo para se transformar, como que por encantamento, num homem belo e rico, com dentes de ouro, seu terno folgado e quente de casimira, seus ray-bans, seu rádio de pilha" [ p.11].

Nelo é esperança da família e, de certa forma, de toda Junco. O narrador destaca que ele é "Um exemplo vivo de que a nossa terra também podia gerar grandes homens" [p.11].

Vinte anos depois, Nelo volta à sua terra natal e o povo de Junco o recebe como um herói.

Totonhim narra que no dia que Nelo voltou "A casa logo se encheu de gente e ele se transformou em sorrisos" [p.24].

No entanto, Nelo volta com problemas financeiros, de saúde, a mulher havia fugido com outro, não podia ver os dois filhos. Por todos esses problemas, Nelo acaba se suicidando.


A morte de Nelo desperta a cidade. É pela voz de Totonhim que ficamos sabendo dos dramas familiares (pai, mãe, irmãos); as relações sociais em Junco; o contraste entre campo e cidade - Junco, Feira de Santana e São Paulo.

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Totonhim descreve Junco como uma cidade preguiçosa, nos confins de sopapo, de boi, de galinha, de telha e cal, todas as cores locais de uma pequena cidade do interior, mas tudo isso enumerado com uma fina ironia. Vejamos:

E foi assim que um lugar esquecido nos confins do tempo despertou de sua velha preguiça para fazer o sinal-da-cruz. O Junco: um pássaro vermelho chamado Sofrê, que aprendeu a cantar o Hino Nacional.

"Uma galinha pintada chamada Sofraco, que aprendeu a esconder os seus ninhos. Um boi de canga, o Sofrido. De canga: entra inverno, sai verão. A barra do dia mais bonita do mundo e o pôr-de-sol mais longo do mundo. O cheiro de alecrim e a palavra açucena. E eu, que nunca vi uma açucena. Os cacos: de telha, de vidro. Sons de martelo amolando as enxadas, aboio nas estradas, homens cavando o leite da terra. O cuspe do fumo mascado da minha mãe, a queixa muda do meu pai, as rosas vermelhas e brancas da minha avó. As rosas do bem-querer:
— Hei de te amar até morrer.
Essa é a terra que me pariu.
— Lampião passou por aqui.
— Não, não passou. Mandou recado, dizendo que vinha, mas não veio.
— Por que Lampião não passou por aqui?
— Ora, ele lá ia ter tempo de passar neste fim de mundo?" [p. 13-14].

Outra questão que aparece no romance é o embate entre o campo e cidade, entre o progresso e a estagnação.

São Paulo é para o povo de Junco a "terra tão looooooonge. Estrada que vão e voltam, na voz que viaja légua e léguas, some na distância da imaginação" [26].

Ao mesmo tempo, essa terra distante representa progresso e riqueza, pois lá nada se parecia com a pobreza de Junco.

O romance Essa terra subverte mais uma vez as concepções que as instâncias críticas têm das obras regionalistas, assim como vemos em relação estereótipos, e trabalha visões distintas do progresso, no que diz respeito ao campo e a cidade.

Também identificamos outra visão que mostra as dificuldades de se viver em São Paulo. Nelo, influenciado pela mãe, caiu na armadilha da sedução da cidade grande. Em São Paulo, Nele continua sendo o baiano pobre.

A vida em São Paulo é tão difícil quanto em Junco. Em uma carta enviada à sua mãe, Nelo manda um recado ao pai: "Diga a papai que isto aqui é muito difícil para quem já é velho. Ele não vai se acostumar. São Paulo não é o que se pensa aí" [ p. 69].

No capítulo nomeado de "Essa terra me enxota", Totonhim narra como o capitalismo arruinou a vida de seu pai, obrigando-o a ir morar em Feira de Santana, onde os filhos e a esposa já viviam. Em Essa terra, o pai de Nelo e Totonhim é a voz que desconfia da cidade grande.

O pai perde as terras porque acreditou nos bancários. Ele fez o empréstimo e ainda acatou a sugestão deles: plantou sisal. Do investimento, o lucro esperado não se concretizou. O banco cobrou a dívida. Para não perder as terras, o pai vende para o irmão (tio de Nele Totonhim), paga o banco e gasta o resto com bebidas.

"A história do banco foi outra encrenca maldita. Bem que o sogro avisou, pouco antes de morrer, e ao atender seu pedido para avalizar as promissórias, havia-lhe advertido: — Compadre, banco é treta. Banco escraviza o homem, como o jogo e a bebida. Compadre, pense bem. Você está tomando dinheiro, pagando juros, para contratar trabalhadores. E se você não tiver uma boa safra? Eles lhe tomam tudo, compadre". [p. 78]

O texto ficou grande. Eu sei. É uma obra maravilhosa, vale muito a leitura e discussão.

Acho, realmente, que todo mundo deveria ler esse livro, pois é um romance que tem muitos pontos de reflexão. Indicado para quem tem interesse em conhecer um pouco mais como se estrutura a sociedade brasileira.

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