Resenha || Morada das lembranças | Daniella Bauer | Editora Biruta


Morada das lembranças

Daniella Bauer

Editora: Bitura
Número de Páginas: 200
Edição: 2014
Avaliação: ★★★ ★
* Book Tour Morada das lembanças
Sinopse: Através dos olhos de uma menina, o leitor acompanha a trajetória de sua família que, em meio à Revolução Russa de 1917, viu se obrigada a deixar para trás tudo o que conhecia e a empreender uma audaciosa e perigosa fuga rumo a um destino totalmente desconhecido. Com novas vidas e identidades, vê-se despertada pelas inúmeras perguntas que permanecem sem resposta. Mas, essa é a chave da morada. Não ter as respostas lhe permite seguir em frente e abrir todas as portas
Há, no mercado editorial, muito livros que trazem o tema da guerra ou a fuga da guerra pelo o olhar da criança. Eu confesso que sou encantada por livros assim. Veja: é um adulto escrevendo com olhos de criança. É preciso ter muita sensibilidade. Isso é fascinante. Há quem diga que essa proposta já está muito batida. Eu digo que um tema nunca fica ultrapassado, se escrita do autor for genial. O tema do amor é que diga.

 Em Morada das lembranças, temos uma senhora que narra suas lembranças de quando tinha apenas sete anos. No prólogo ficamos sabendo que ela narra para a neta. Então seria a neta a adulta que contaria a história da avó?!
"Mas aquela menina minha, nascida um pouco de mim, filha do meu filho, a confidente. A escutadora atenta, minha herança, ela ficaria. E contaria minha história, pois a escrita retém aquilo que escapa pelas frestas da vida." [Prólogo, p. 19]
Bom, Morada das lembranças traz a história de Maria, uma menina judia, de sete anos, que junto com a mãe, Mahena, e o irmão, bebê, são obrigados a fugir da Rússia, por medo de serem assassinadas, como o pai fora.

A época da fuga, a Rússia estava imersa em violência, em perseguições civis. Os judeus foram o alvo principal. Em 1914, a Rússia envolveu-se na Primeira Guerra Mundial, porém o combate trouxe consequências: desorganização da economia, fome, pobreza e racionamento, saques. A Revolução de 1917 era para derrubar o czar Nicolau II, na tentativa de reverter o canário de caos. Bom, as coisas não saíram nada bem.

A família veio desse contexto de guerra, mas eles amavam a terra natal. Maria narra como foi a noite da fuga. Com estava frio, como havia corpos na rua. Como foi a fuga da Rússia para a Polônia (inprecionante). Como foi a travessia do Atlântico, na terceira classe de um navio, onde pessoas morriam todos os dias.

A avó já morava no Brasil, no Rio de Janeiro. Mas isso de forma alguma foi motivo para facilitar a nova vida em terras brasileiras. A mãe e avó não se dava nada bem e, infelizmente, a pequena Maria não iria ser bem tratada pela avó.

A adaptação não foi nada fácil. Nem podemos chamar de adaptação. Os três membros da família viviam com o mínimo. Foram obrigados a mudar de nomes. Não podiam frequentar sinagogas, nem praticar os ritos de sua religião. Ter sobrenome judeus era muito perigoso naquela época. Maria foi o nome cristão que colocara na menina.

A avó era uma mulher amargurada, queria que a mãe de Maria virasse uma polaca - mulheres do leste europeu que, em sua maioria, fugiam da guerra, mas chagando na Américas eram obrigadas a se prostituir, em cidade como: Rio de Janeiro, Buenos Ares.

Maria teve que amadurecer ainda criança. Fez trabalho de adulto. Foi mãe para o irmão, quando a própria mãe perdeu as forças. Foram anos de servidão à avó.

Morada das lembranças é um livro tocante, é reflexivo. Só não leva cinco estrelas porque em alguns momentos há um retomar do mesmo tema. Explico: o livro é uma narrativa intercalada com mementos de reflexões. São reflexões da condição de ser judeu, da guerra, dos refugiados, da vida que os refugiados levam em outro país, do preconceito. Essas são questões que perpassam toda a obra. No entanto, por vezes, eu tive a impressão da repetição da mesma ideia, mas com outras palavras. 

Não que isso comprometa a qualidade do livro. Acho que Morada das lembrança é o livro nacional de escrita mais elaborada que li esse ano. Escrita elaborada não no sentido de palavras difíceis, mas no sentido de que a autora tem intimidade com as palavras, com um vasto vocabulário e que sabe usar as palavras no lugar certo, impondo uma fluidez na escrita e, conseguintemente, na leitura também.  
"Quando nascemos judeu, cristão ortodoxo, anglicano, protestante, ou seja lá qual for nossa religião, ela diz muito mais de nossa vida que nosso próprio sangue."
E, por fim, preciso falar do cuidado com a edição. Pelas as páginas do livro e na capa há uma estampa que se mescla ao texto. Somente no final do livro é que compreendi o sentido da ilustração. A Editora Biruta fez um ótimo trabalho.

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