Resenha || Restos de Nós | Bia Onofre | Chiado Editora


Restos de Nós

Bia Onofre

Gênero: Romance
Editora: Chiado Editora
Número de Páginas: 192
Edição: 2015
Avaliação: ★★★★★
* Livro cedido em parceria com a escritora
Sinopse: Sobre a mesa do escritório, o laptop dela abandonado. Aproximou-se, o desassossego aumentou. Veio a tentação de vasculhar os arquivos e penetrar no mundo da esposa, nas anotações que ele desconhecia. Não era do seu feitio, mas por que não? Ela nunca saberia. O dilema moral durou pouco. Usando a mão do médico que alcançava um porta-retrato, o destino esbarrou no teclado e as estrelas da tela de proteção pararam de piscar. Um texto desconhecido, porém familiar, surgiu diante de Rodrigo. Mais de sessenta páginas datadas. Ficou surpreso. Não imaginava que Mariana mantivesse tais registros.

Oi gente! Hoje trouxe a indicação de um livro que surgiu para mim por acaso, e confesso que não poderia ter sido tão surpreendida como fui por ele. Restos de Nós foi escrito por Bia Onofre, uma brasileira que resolveu expressar em seu primeiro romance as formas de escravidão a que somos submetidos.

Mas, a principal ênfase foi dada às correntes, ou melhor, dizendo, aos ‘nós’ que há muito foram dados na vida das mulheres e que até hoje teimam em interferir em nosso destino.
A narrativa está situada em Bananal (SP) e Gávea (RJ) e tem como personagens principais Maria Clara e Mariana. Duas mulheres que mesmo em épocas distintas tem muito em comum.
Leitura acompanhada das tão famosas balas de café citadas pelas personagens. Apesar de ter ganho a receita preferi não me arriscar na cozinha e comprei kkk

Conhecemos as personagens por meio de seus diários. Uma maneira fantástica de sentir cada uma delas mergulhando na história como se estivéssemos lá.

O diário de Maria Clara foi encontrado tempos depois de sua existência no casarão onde morou. Foi Victoria, integrante de uma equipe de restauração de monumentos antigos quem encontrou o caderno e com ele a possibilidade de conhecer a versão da história, tantas vezes contada pela avó, pelas mãos da própria Maria Clara: Uma mulher do século XIX; Nasceu marcada por um acontecimento triste – a morte da mãe.
“Pobre de mim. Meu choro primordial foi, por certo, de desespero ao sentir que nascera marcada pela morte”.

Do pai só recebeu desprezo e ódio. E foi da pele negra, que tanto sofria com a escravidão na fazenda do seu progenitor, que ela recebeu afeto e conseguiu sobreviver até que um dia estivesse pronta para casar. O casamento, sem amor foi apenas mais um nó. A história da personagem segue um ciclo dor-amor-dor.


Já o diário de Mariana, mais moderno e não mais escrito em um caderno e sim digitado em um notebook, foi descoberto pelo marido. Com os escritos conhecemos uma Nutricionista, casada, realizada (?), talvez não. A personagem do século XXI é marcada por um humor negro e por muita inteligência. Ela enfrenta uma crise pessoal: corpo e alma em constante conflito. O casamento vai mal, muitos nós em sua vida.
“Não posso isso, só posso aquilo, hoje os deveres, amanhã as imposições. Inferno à paisana. Possuída também pelo demônio, ando exausta por ter que distorcer, retorcer e converter desejos tidos como obscuros. Meu anjo mau sufoca meu bom diabo. Mas só o último talvez me trouxesse a verdadeira paz”.

Pouco a pouco com os registros das personagens vamos entendendo de que ‘nós’ Bia se refere. É notável que a mulher têm carregado, cultural, social e por que não psicologicamente, uma culpa imensa, será ainda herança do fruto proibido? Ao que percebemos com os diários não é por castigo divino que mulheres como Maria Clara e Mariana vêm sofrendo. Por vezes, não vi diferença entre os lamentos das personagens separadas por mais de cento e cinquenta anos.

Apesar de as mulheres já terem conquistado muito, tudo isso é muito externo, conseguimos ver, mas não sentimos tais mudanças. E os nós que carregamos dentro de nós? Alguém os vê?
“Meu desejo se manifesta forte e embaralha os pensamentos. Não me reconheço. O fogo queima o bom senso. Levada ao Tribunal da Santa Inquisição arderia na fogueira ao lado de Bovary. Vão-se os livros e as bruxas, ficam os castigos”. [Maria Clara]
Acho que não preciso dizer o quanto gostei da leitura né? Não foi à toa que o livro foi premiado pela Biblioteca Nacional! Um livro forte e reflexivo, muito bem escrito e instigante. A edição está bem simples e muito caprichada, não encontrei nenhum erro de digitação e a divisão da narrativa, intercalada entre o diário de Maria Clara e Mariana, é uma delícia de ler...

Não poderia deixar de ressaltar que entre as duas personagens gostei bem mais de Maria Clara, que mesmo em meio ao sofrimento, ainda sonha em ser feliz, em amar... Mariana me pareceu, por vezes, dramática e até mesmo antipática, querendo colocar no mundo o peso de suas frustrações.

Só pra ressaltar, o livro cita algumas obras literárias como Madame Bovary e As mil e uma noites. E também faz muita menção à mitologia grega, pra quem curte é um atrativo a mais. Para os interessados, o livro está disponível na livraria cultura: Livraria Cultura e também no site da editora: Chiado Editora. Boa Leitura!

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