Resenha || O capricórnio se aproxima | Flavio Cafiero | e-galáxia


O capricórnio se aproxima

Flavio Cafiero

Formato: E-book
Editora: E-galáxia
Edição: 2014
Avaliação: ★★★★
Comprar: E-book
* Livro cedido em parceria com a editora
Sinopse: “Vender enciclopédias”, “trabalhar em banco”, “comer pudim de pão”, “fazer aula de violão” e, finalmente, “ser de capricórnio”. Códigos familiares para assuntos proibidos para as crianças. É percorrendo esse mapa congestionado da linguagem que o leitor vai compreendendo lentamente o enredo cheio de humor e melancolia de “O capricórnio se aproxima”, do carioca Flavio Cafiero. A personagem principal é João, um taxista que tenta se entender com as novas tecnologias exigidas pela profissão e com a necessidade de aprender inglês por conta da Copa do Mundo no Brasil. Porém, mais difícil do que operar um sistema de GPS ou arriscar um Go on, são as relações familiares, que podem parecer banais apenas para quem as vê de fora. Mas aos poucos vamos nos reconhecendo no cotidiano da família de João através de referências escolhidas com muita agudeza por Cafiero: programas de televisão, jogos de futebol, xingamentos, nomes próprios e comidas típicas. Algum detalhe fisga o leitor.Surge então um outro mapa: o da cidade do Rio de Janeiro. E assim como o da linguagem, aqui há regras, sentidos obrigatórios, congestionamentos e riscos de acidentes. Os mapas da linguagem e da metrópole se sobrepõem criando camadas de significado.Quando criança, João aprendeu que há palavras que não se pronunciam. Assim como há caminhos que se deve evitar. Mas sonhos, desconfianças, boatos e toda a confusão gerada pela trama densa da linguagem, levam o protagonista a um desfecho dramático. E em alguma medida, patético.
Eu estava curiosa para ler O Capricórnio se aproxima. O que esperar de um livro escrito seguindo regras determinadas? Eu sei que livros demanda um trabalho formal árduo. No entanto, bem lá no fundo, eu vejo os livros como fruto apenas de inspiração, quase como se fossem algo mágico.

O Capricórnio se aproxima traz a história de João, um taxista carioca que anda com a vida pessoal um tanto quando problemática. No entanto, o leitor não vai encontrar um dramalhão mexicano. O destaque é justamente o humor presente, principalmente, nas memórias de infância do personagem.

Assim, mesclando passado e presente da vida de João e de seus familiares, o leitor passeia pelo Rio de Janeiro abordo do táxi. João até tem um ponto fixo de taxista, em Copacabana, mas quase não fica lá, pois está conectado "com esses aplicativos de chamar táxi pelo celular que hoje emendam uma corrida na outra." João fez curso de inglês para receber os turistas da Copa do Mundo de 2014, mas só usou uma única vez.

O capricórnio se aproxima é uma leitura indicada para quem quer variar o estilo leitura. É um livro curto, li em pouco tempo. A estrutura lembra muito uma crônica, tanto pela linguagem, como pelo o enredo, por trazer uma visão irônica e bem humorada dos fatos. O título do livro tem tudo a ver com essa visão bem humorada de algo sério na vida do personagem principal. João poderia ser você, eu, o vizinho. Nem sempre é fácil encarrar os problemas de frente.

João é um personagem meio que foge da verdade.
"Sempre foi assim por ali, as verdades desfilavam com uma espécie de capa, ou fantasia, e levou tempo pra o João entender que vender enciclopédias não devia ser exatamente um ganha-pão."
"Deus me livre ser amigo de gente de capricórnio, João dizia, antes de desconfiar, já com dez, que era mais um dos códigos de família".
Leia O capricórnio se aproxima. Uma leitura rápida, leve, bem humorada. Eu me identifiquei com a história porque na minha casa, quando criança, também os adultos usavam de códigos quando falavam de assuntos que as crianças ainda não tinham idade para participar. O que só atiçava mais minha curiosidade. No caso do personagem, a ingenuidade é tranço da sua personalidade.

Curiosidade:
Eu falei antes, esse livro foi escrito seguindo regras pré-determinadas. O capricórnio se aproxima é o primeiro livro publicado seguindo o projeto  Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle, Oficina de Literatura em Potencial, na tradução livre), movimento que surgiu na França em 1960, que tinha pretensão de constranger literatura. Criado por escritores e matemáticos, o Oulipo provocava autores a escrever com regras.

Por exemplo: Georges Pérec escreveu um livro sem a letra e, a mais comum do francês – “La Disparition”. Participaram do movimento Italo Calvino e Raymond Queneau, entre outros.

A e-galáxia, que publica somente livros digitais, recriou o Oulipo no Brasil, por meio do Selo Jota, editado pela escritora Noemi Jaffe. A editora tem a uma proposta de chamar autores que tenham poucas publicações ou mesmo nenhuma, mas que são considerados bons escritores, e, a partir daí, propor desafios a eles, nos moldes do Oulipo, e fazer livros curtos, numa regularidade mensal”.

O autor que inaugurou o Jota foi Flavio Cafiero, que escreveu “O Capricórnio se Aproxima”. Os próximos serão Samir Mesquita e Ana Estaregui. Para “O Capricórnio se Aproxima”, o desafio lançado por Noemi tinha como regras:
  • Escrever sem adjetivos
  • Usar todas as letras do alfabeto em todos os capítulos, incluindo k, w e y
  • Usar pelo menos um numeral em cada capítulo
  • Cada capítulo deveria ter no máximo 500 palavras



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